quarta-feira, 23 de abril de 2014

Alivio..


A respiração parecia uma tarefa árdua a ser feita, matar um leão cara a cara sem armas, encarar a morte de frente com ares de desdém.
Inspirar e expirar virou algo pensado, controlado, amedrontado. Ela olhava para os lados e as outras pessoas não pareciam estar contando o número de vezes e a intensidade da entrada e da saída do ar de seus pulmões. A comparação. De novo.
Implorar para o ar encontrar seu sangue e sair de novo do seu corpo vagarosamente, sem maiores entraves, era quase o mesmo que, de frente para o diabo, pedir para ele beijar o crucifixo pendurado em seu pescoço. Era sofrido. Era penoso. Até vergonhoso.
Pensava no adeus, na desgraça, no fim. Pensava nele, nela, naqueles. Ah, os outros.
Daí, diante daquele coração acelerado, daquela mente tomada pela manifestação do medo, da respiração dura, calculada e pesada, achou uma luz.
Ofegante, encontrou no fim daquele túnel de carbono, fumaça e escuridão – que bloqueavam a entrada e a saída do ar – a luz que acalmou. Ela era feita de cores, natureza e infância. Era feita de paz. Era feito algodão doce – fofo e confortável. Sem cálculos penosos, sem entraves, sem dureza.
Lembrou do dia em que seu pai empurrou o balanço quando os dias ainda não tinham nome, apenas aromas e sabores. Lembrou da sua mãe beijando suas bochechas pintadas de vermelho de tanto brincar. Lembrou do dia em que o avião riscou forte o céu e dedos de pessoas gigantes apontavam para cima. Lembrou das visitas à feira de rua às quartas, e dos pedaços de frutas suculentas que ganhava por ser pequenina e graciosa. Lembrou. Viajou pra longe. Esqueceu.
Esqueceu da respiração e de seu peso. Esqueceu do pavor. Esqueceu do agora. A vida era leve, ela era felicidade, assim como toda a criança, e estava tudo bem…
.Entendeu que o que a sufocava era levar tudo aquilo muito a sério. Dias não devem ser nomeados, beijos são feitos para dar – não para serem guardados -, o céu é lindo de se olhar e apontar com dedos de esperança, e presentes são feitos para dar – não para serem encarados como futuros. Respirou fundo, porque decidiu que assim seria, e seguiu sorrindo – com passos de mulher e respiração de criança.

 RolidaSilveira

Nenhum comentário:

Postar um comentário

De sua opinião :)