A respiração parecia uma tarefa árdua a ser feita, matar um
leão cara a cara sem armas, encarar a morte de frente com ares de desdém.
Inspirar e expirar virou algo pensado, controlado,
amedrontado. Ela olhava para os lados e as outras pessoas não pareciam estar
contando o número de vezes e a intensidade da entrada e da saída do ar de seus
pulmões. A comparação. De novo.
Implorar para o ar encontrar seu sangue e sair de novo do
seu corpo vagarosamente, sem maiores entraves, era quase o mesmo que, de frente
para o diabo, pedir para ele beijar o crucifixo pendurado em seu pescoço. Era
sofrido. Era penoso. Até vergonhoso.
Pensava no adeus, na desgraça, no fim. Pensava nele, nela,
naqueles. Ah, os outros.
Daí, diante daquele coração acelerado, daquela mente tomada
pela manifestação do medo, da respiração dura, calculada e pesada, achou uma
luz.
Ofegante, encontrou no fim daquele túnel de carbono, fumaça
e escuridão – que bloqueavam a entrada e a saída do ar – a luz que acalmou. Ela
era feita de cores, natureza e infância. Era feita de paz. Era feito algodão
doce – fofo e confortável. Sem cálculos penosos, sem entraves, sem dureza.
Lembrou do dia em que seu pai empurrou o balanço quando os
dias ainda não tinham nome, apenas aromas e sabores. Lembrou da sua mãe
beijando suas bochechas pintadas de vermelho de tanto brincar. Lembrou do dia
em que o avião riscou forte o céu e dedos de pessoas gigantes apontavam para
cima. Lembrou das visitas à feira de rua às quartas, e dos pedaços de frutas
suculentas que ganhava por ser pequenina e graciosa. Lembrou. Viajou pra longe.
Esqueceu.
Esqueceu da respiração e de seu peso. Esqueceu do pavor.
Esqueceu do agora. A vida era leve, ela era felicidade, assim como toda a
criança, e estava tudo bem…
.Entendeu que o que a sufocava era levar tudo aquilo muito a
sério. Dias não devem ser nomeados, beijos são feitos para dar – não para serem
guardados -, o céu é lindo de se olhar e apontar com dedos de esperança, e
presentes são feitos para dar – não para serem encarados como futuros. Respirou
fundo, porque decidiu que assim seria, e seguiu sorrindo – com passos de mulher
e respiração de criança.

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